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Ícones da resistência

Breve resenha a respeito do teatro "Eu e Ela: visita a Carolina Maria de Jesus" e sua obra, "Quarto de Despejo"



A peça teatral “Eu e Ela: visita a Carolina Maria de Jesus” foi adaptada e transmitida ao vivo para o público através do canal “Sesc São Paulo”. Com 47 minutos de duração, a obra foi escrita, dirigida e protagonizada por Dirce Thomaz. O monólogo baseia-se em “Quarto de Despejo”, diário de Carolina Marina de Jesus, a qual relata suas vivências na favela.


Jornalista da “Folha da Manhã”, Audálio Dantas, a fim de reportar sobre a vida dos moradores da favela do Canindé, dirige-se até o local para a realização da matéria. Ao deparar-se com os escritos de Carolina Maria de Jesus, decide que não há ninguém melhor que ela, capaz de descrever o cotidiano daquelas pessoas. Tais relatos compõem o livro “Quarto de Despejo”, que apesar de publicado em 1960, continua abordando questões atuais, uma vez que no Brasil há 5,12 milhões de domicílios em favelas, segundo o IBGE. Além disso, a fome, que está presente o tempo todo na obra de Carolina, atinge 43,1 milhões de brasileiros.


"Mas é uma vergonha para uma nação. Uma pessoa matar-se porque passa fome"

Carolina Maria de Jesus, foi uma verdadeira vítima da fome e do sofrimento. Nascida em 1914, na cidade de Sacramento, Minas Gerais, teve uma infância humilde e em 1947 partiu para São Paulo. Mãe de três filhos, para sustentá-los, trabalhava como catadora de papel. Apesar das dificuldades, atribuiu aos livros a formação do seu caráter, pois foram os responsáveis por desviá-la da marginalidade.


O compilado possui narrações cruéis, as quais foram escritas em papéis coletados dos lixos. As páginas contêm a rotina de Carolina, seus sofrimentos, sua condição de miséria, seus anseios e desejos de uma vida melhor. Também, relata o quanto a fome dói. Traz à tona questões raciais, discute as desigualdades sociais e critica a falta de comprometimento dos políticos, os quais em época de eleição prometem melhorias e assistência aos favelados, porém quando tomam o poder, continuam deixando-os desamparados.


"Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco".

Todas essas temáticas são exploradas no monólogo interpretado por Dirce Thomaz. A composição da peça, a fim de nos remeter à humildade vivida por Carolina, apresenta cenário (sacos de lixo e folhas penduradas) e vestimentas simples, relacionando muito bem com o serviço exercido por ela. Também, a trilha sonora assistida por Marco Xavier conta com clássicos como “Assim não, Zambi” de Martinho da Vila, que além de dar uma emoção a mais à obra, traz as condições do pobre cantadas.


A interpretação de Dirce é grandiosa. Ela nos desperta um sentimento de empatia, e ao mesmo tempo de desespero, pois faz com que queiramos abraçá-la em sinal de conforto. Carolina é muito bem representada por ela, principalmente porque ambas se assemelham fisicamente. Não só isso, mas Dirce também é de origem humilde e compreende as vivências de Carolina. A atuação, o gingado, as expressões faciais e os gestos nos fazem esquecer que se trata de uma peça teatral e faz jus à frase “a arte imita a vida”.


Atriz, dramaturga e diretora teatral, Dirce Thomaz foi criada na fazenda “Nova Esperança”, localizada no município de Santa Mariana (PR). Filha de dois mineiros, eram em nove irmãos. Aos 14 anos, teve seu primeiro contato com a alfabetização e a partir de então, apaixonou-se pela literatura. Sofreu racismo mas tomou consciência desse problema e lutou contra ele, ao mesmo tempo que se dedicava ao teatro. Sua primeira grande atuação foi como “Xica da Silva”, dirigida por Antunes Filho.


Em 1992, a fim de fazer somente teatro negro, funda o “Centro de Dramaturgia e Pesquisa sobre Cultura Negra”. Posteriormente, altera o nome para “Centro de Cultura Maria Tomázia de Jesus”. Suas criações cenográficas baseiam-se em memórias de sua infância, mas sua primeira peça “Os Sinos Dobram por elas”, foi inspirada em pesquisas a respeito dos problemas psicológicos que mulheres violentadas sofrem. Seu trabalho mais recente, “Eu e Ela – Visita a Carolina Maria de Jesus”, estreou em 2017, em CEU Jambeiro (São Paulo) e recentemente, devido à pandemia, foi adaptado para ser transmitido ao vivo pelo YouTube, no canal do Sesc.


Assim, pode-se dizer que há uma conexão entre as duas, mesmo que não tenham se conhecido pessoalmente. Para além das diferenças, é inegável que as semelhanças a unem, e isso faz com que a obra de ambas engrandeça. Apesar de toda a fama, tal prestígio não foi suficiente para mudar drasticamente suas vidas, principalmente de Carolina. Após o mercado editorial consumir seus escritos, abandonaram-na. Aos 63 anos, morreu no sítio em Parelheiros (SP).


Também, fica evidente a importância da leitura e da escrita. Estas foram responsáveis por darem melhores condições de vida à Carolina e Dirce e marcam suas condições tanto étnicas quanto sociais. Logo, tanto a peça teatral quanto o diário devem ser reconhecidos, discutidos e refletidos, a fim de se pensar em uma sociedade melhor, com cidadãos que lutam pela diminuição das desigualdades, do racismo, da violência, da fome e da miséria. São obras fortes, muitas vezes chocantes, mas indispensáveis, pois nos levam a almejar um mundo diferente.


Assista a obra disponível no YouTube:



















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Jornalista, 23 anos

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