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Nosedive e a Sociedade do Espetáculo

A temática futurística, aliada às críticas sociais, é o que faz de Black Mirror, uma série difícil de digerir. Isso porque os episódios nos apresentam situações – ainda que irreais – catastróficas, nos levando a questionar sobre a sociedade em que estamos inseridos. Criada em 2011 por Charlie Brooker, os capítulos são independentes, contendo enredos e personagens distintos, portanto, podem ser assistidos fora de ordem. Porém, não se enganem. Não será fácil maratoná-la. Devido ao sucesso do programa, a plataforma de streaming Netflix resolveu comprá-lo por uns bons milhões de dólares. E realmente, não é para menos.


O foco do texto concentra-se em analisar e discutir o 1º episódio da 3ª temporada, intitulado “Nosedive” ou “Queda Livre”. Lacie Pound, interpretada pela brilhante Bryce Dallas Howard, desfruta de uma vida incrível: em uma sociedade caracterizada pela sua posição social, em que sua pontuação pode variar entre 0 e 5 pontos, um 4,2 não é nada mal. Mas Lacie quer mais! A fim de conquistar a casa dos sonhos, a protagonista precisa elevar sua reputação. Mesmo que para isso, ela precise viver em uma realidade ilusória, onde tudo e todos são perfeitos. No entanto, mal sabe ela que, ao longo do caminho, as coisas não sairão como o esperado.




“Nosedive” é considerado um dos melhores episódios da saga. Isto porque, apesar de criar um universo fictício, ele não foge tanto assim da realidade e nos abre a mente para refletir sobre diversos aspectos do ambiente que estamos inseridos, em que likes e compartilhamentos definem se pertencemos ou não à sociedade. Essa busca incessante pela aceitação que buscamos através de nossas redes sociais é vivenciada por Lacie a todo momento, a qual consome alimentos que não gosta apenas para agradar seus espectadores e distribui notas elevadas mesmo quando esse não é o seu desejo.


As curtidas em nossos perfis digitais demonstram o quanto temos a necessidade de sermos reconhecidos. São elas que medirão se os usuários estão sendo aceitos, ou não, pela comunidade. O pesquisador Guy Debord, o qual elaborou conceitos sobre a “sociedade do espetáculo”, já afirmava há muitos anos, que os likes representam uma carência afetiva. “Nosedive” expressa o modo como as relações sociais são mediadas por algoritmos e números. Portanto, somos escravos dos status.


Conforme as tecnologias evoluíram, os comportamentos dos indivíduos e as relações interpessoais também se modificaram. As redes sociais possibilitaram a interação entre povos e comunidades. Em contrapartida, passaram a moldar as estruturas coletivas, alteraram o comportamento social, a percepção dos acontecimentos e a autoimagem. Portanto, o que é exibido na internet, normalmente camuflam as verdadeiras obscuridades por trás.


A sociedade utópica em que vive Lacie, onde tudo aparentemente é perfeito, visto as cores pastéis das casas, roupas e estabelecimentos, é de fato, opressiva. Aqueles que possuem popularidade baixa não têm acesso à saúde, bons empregos e bens materiais. Pelo contrário, são presos em celas em alguns casos. Mas por fim, você perceberá a contradição existente: apesar de presos, nunca foram tão livres. Livres para falarem e pensarem o que quiserem, sem medo de julgamentos e reprimendas. Que através de “Nosedive”, possamos repensar sobre o modo como nos conectamos uns com os outros.

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Jornalista, 23 anos

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