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Precisamos falar sobre Kevin - resenha

Precisamos falar sobre Kevin e sobre a maternidade compulsória!


O livro escrito por Lionel Shriver em 2003 foi um dos mais difíceis que li até hoje, isso devido à sua complexidade e conteúdo extremamente profundo. A narrativa é contada em 1ª pessoa por Eva, mãe de um adolescente que vitimou 9 pessoas em um massacre escolar, em formas de cartas destinadas a seu ex-marido Franklin. Pode-se considerar que estes escritos são como um desabafo, em que Eva relata os acontecimentos que antecederam o caos do presente.


A protagonista, uma mulher de classe média alta e claramente elitista, nunca teve o sonho de ser mãe. Pelo contrário, acreditava que uma criança prejudicaria sua vida, inclusive no âmbito profissional. De maneira oposta, Franklin, um americano tradicionalista, desejava um herdeiro, o qual honrasse seu sobrenome. Dessa forma, através de ameaças sutis e brigas sem fim, convenceu Eva a gerar um descendente.



Capa da adaptação. Foto: Reprodução/Filmow

É nesse sentido que Shriver discute sobre a maternidade compulsória, que nada mais é do que uma gravidez fruto de pressões sociais. Há uma construção social de que nós, mulheres, só seremos completas quando gerarmos um novo indivíduo. Estamos falando de um enredo que se passa entre os anos 80 e 90, épocas em que a liberdade de escolha praticamente não existia.


Embora as lutas feministas tenham garantido novos direitos às mulheres, ainda estamos inseridos em uma sociedade que julga aquelas que não desejam ser mães. E se nos renegamos à essa função, nos sentimos culpadas – pelo menos é assim que querem que nos sintamos. Mas tudo bem termos esse controle da nossa função reprodutiva.



Portanto, fruto de um relacionamento abusivo, Kevin nasce. Os relatos da gestação e criação do menino são repulsivos, difíceis de serem lidos, uma vez que aparentemente não há vínculos e afetos entre os dois desde o nascimento. E a partir desse contexto, a narrativa pode ser interpretada de formas diferentes. Kevin nasceu psicopata ou tornou-se um após ser negligenciado por seus pais? Quais atitudes resultaram em um comportamento tão problemático e maquiavélico?


“É só isso que eu sei. Que, no dia 11 de abril de 1983, nasceu-me um filho, e não senti nada. Mais uma vez, a verdade é sempre maior do que compreendemos. Quando aquele bebê se contorceu em meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribui a rejeição – talvez ele fosse quinze vezes menor do que eu, mas naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então, lutamos um com o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego a admirá-la.”

Não entrarei em questões e interpretações psicológicas, não cabe a mim, mera jornalista. No entanto, é evidente nos relatos, que a sociedade sempre busca responsabilizar alguém, e esse alguém, é a mãe. Pouco se fala sobre o abandono e a negligência paterna, muito menos sobre os transtornos psicológicos que as crianças podem apresentar. Dois anos após o crime, Eva ainda tenta entender qual foi o seu papel na chacina.


Precisamos falar sobre Kevin ganhou uma adaptação em 2011 e é profundo e intenso como a obra. Não há leveza, nem entretenimento, é um filme sombrio do início ao fim, então caso você opte por ler/assistir, boa sorte!

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Jornalista, 23 anos

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