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Sociedade do Cansaço

Nos últimos 3 anos, eu criei projetos para que conseguisse ser uma estudante produtiva. Iniciei um canal no Youtube, o qual não durou 1 mês. Produzi um podcast sobre true crimes e logo parei de gravar episódios pois não estava conseguindo conciliar com o último ano de faculdade. Este blog, inclusive, ficou parado por um bom tempo. E voltei a publicar justamente pelo mesmo motivo que me fez criá-lo: ser produtiva. Eu tinha a necessidade de ser ativa a todo instante. Recentemente, alguns “mini vlogs”, exibidos tanto no Instagram quanto no TikTok, me chamaram a atenção e fizeram com que eu refletisse sobre a rotina a qual eu tinha me acostumado.

Você provavelmente já se deparou com esse tipo de vídeo nas redes sociais. Caso não saiba do que se tratam, são basicamente vídeos curtos em que os indivíduos gravam e postam seus afazeres ao longo do dia. Normalmente, são pessoas que acordam as 5 horas da manhã, vão à academia as 6h30, ao trabalho as 8h, curtem uma caminhada ao final da tarde, e ainda conseguem ser produtivos durante a noite. Você olha aquilo e pensa: poxa, quero ter uma rotina assim. Então você tenta. E percebe que ao final da semana você está exausto (a). E se não consegue manter os mesmos hábitos por um período de tempo, se sente frustrado (a). Bem-vindos à Sociedade do Cansaço!



Em 2015, o filósofo Byung-Chul Han escreveu uma obra a fim de demonstrar que estamos inseridos em uma sociedade do desempenho, onde o excesso de positividade resulta em depressão, ansiedade e bornout. Aos vermos o outro produzindo, nos sentimos inúteis. Cada vez mais as empresas exigem eficiência e não toleram falhas. E se fracassamos, nos culpamos. Até porque, segundo os discursos motivacionais, o nosso sucesso depende somente de nós.


A sociedade do século XXI, segundo Han, não é mais aquela sociedade disciplinar descrita por Michel Foucault, onde os indivíduos se submetiam às instituições disciplinares. Agora, os indivíduos surgem enquanto empresários de si mesmos, sujeitos de desempenho, portanto, esta é uma sociedade do desempenho. Ainda de acordo com o filósofo, esse excesso de positividade desponta em uma nova forma de violência.


Dessa forma, “o explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos”. Mas essa autocobrança, positivação do mundo e pressão pelo desempenho resultam em indivíduos cada vez mais com problemas psicológicos. “O depressivo não está cheio, no limite, mas está esgotado pelo esforço de ter de ser ele mesmo”, afirma Han.


A Síndrome de Burnout foi classificada como doença ocupacional pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em março de 2022 e é caracterizada enquanto um esgotamento físico, emocional e mental devido ao estresse crônico causado pelo trabalho. De acordo com uma pesquisa realizada pelo International Stress Management Association (Isma), o Brasil ocupa o segundo lugar em número de casos diagnosticados com a doença. A Universidade de São Paulo (USP) também realizou um levantamento e apontou que 1 em cada 4 brasileiros sofrem com a Síndrome.


Em uma sociedade frenética, não há mais tempo e tolerância para o tédio e o ócio. E ambos são essenciais para o processo criativo. Está tudo bem você acordar as 5 horas da manhã e ir para a academia, fazer uma corrida, ou seja lá o que for. Mas também está tudo bem se você não tem condições para isso. Está tudo bem você acordar as 11 horas e não fazer absolutamente nada. Viva dentro da sua realidade e faça o que está ao seu alcance, sem comparações. Elas só servirão para te deixar para baixo ou frustrado (a). Cada um sabe o peso que carrega, não se culpe, até porque “o excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma”.


Foto Destaque: Reprodução/ Freepik

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Jornalista, 23 anos

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